Raylan Fernandes, criador da Hunter.FM fala sobre a trajetória da emissora e afirma ter com digital um "faturamento próximo ao de muitas emissoras no dial".

O rádio no digital

A emissora de rádio – seja no dial ou no digital - tem que entregar ao anunciante e às agências os resultados que eles esperam: alcançar o maior número possível de ouvintes, pelo menor custo e maior impacto. O digital leva vantagem em relação ao dial (AM/FM), porque a produção dos receptores tradicionais está em queda e possui uma base territorial limitada, definida pela legislação de concessão da radiodifusão. São concessões públicas e, portanto, estão sujeitas a uma série de regras e burocracias que as torna mais caras e complexas comparadas às da Internet.

Rádio no digital pode ser ouvida por quaisquer dispositivos conectados à Internet, deste telefones celulares, tablets, computadores, smart TVs, consoles de games e por canais digitais, tais como o Youtube e outras plataformas de streaming.

Raylan Fernandes, criador da Hunter.FM – uma emissora nascida na web em 2009 - e que não possui o dial – comenta que o radiodifusor e as agências podem se utilizar de ferramentas de medição de audiência e alcance para aplicar as campanhas adequadas e garantir a entrega do conteúdo alinhado com as preferências dos ouvintes, mesmo que as dificuldades sejam as mesmas para ambos. No entanto, quem está no digital terá maior capacidade de atingir seus objetivos. “No nosso caso, da Hunter.FM, temos um faturamento próximo ao de muitas emissoras no dial, com uma outra diferença: nossos custos operacionais são menores, porque não dependemos de manutenção de antenas, outorgas, entre outros ‘insumos” necessários para fazer uma emissora tradicional funcionar”, explica.

“Mesmo que a Internet já tenha quase 30 anos no Brasil, as mídias digitais compõem um universo ainda muito novo e que vem sendo descoberto a cada dia. As próprias emissoras do dial ainda não sabem bem como trabalhar com o digital, assim como muitas agências de publicidade e anunciantes. Cada uma está seguindo um caminho e no final, espero, a gente consiga algo mais bem estruturado. O comercial no digital não é fácil.”, afirma o web-radialista.

De acordo com entendimento de Raylan Fernandes, o radiodifusor no digital depende das métricas para monetizar sua emissora. “Quando um ouvinte se conecta a uma rádio no digital - via web ou aplicativo móvel – o radiodifusor recebe via streaming os dados sobre o seu perfil a partir da coleta realizada pelo Google Analytics. Isso permite ao radiodifusor conhecer os interesses dos ouvintes e criar um mídia kit atrativo para os anunciantes. Do lado das agências de publicidade, essas informações são usadas para avaliar se a emissora possui o perfil de ouvinte buscado pelo anunciante.

“Quando os anunciantes investem em publicidade em uma rádio, eles querem saber quantas pessoas podem alcançar e quantas realmente são impactadas pela veiculação. Para isso, o mercado publicitário se utiliza de ferramentas de medição da audiência e alcance reais no digital. São tecnologias novas que estão se desenvolvendo muito e que possibilitam ao radiodifusor fortalecer a sua presença no digital, incluindo interações nas redes sociais onde estão seus ouvintes. São essas métricas que irão ajudar a emissora a entender qual é o seu público real e o que entregar a ele.”, acrescente o líder da Hunter.FM.

Gosto pelo rádio na internet desde jovem

Aos 17 anos, o “moleque” inventou de montar uma rádio na Internet. Raylan Fernandes ainda estava no Ensino Médio quando montou uma rádio na Internet em 2010, a Hunter.FM.

A única vez que entrou em uma emissora foi muito depois de ter criado a sua própria emissora online, em 2011, para acompanhar uma amiga que fazia curso de locução. Seu gosto e curiosidade pelo que havia por de trás daquela “caixinha” eram iguais ao de muitos, o que reforça a magia que o rádio exerce sobre as pessoas.

A ideia de ter uma rádio de Internet nasceu em 2006, quando tinha 11 para 12 anos. Na época já havia algumas emissoras na Web e logo imaginou que também poderia montar uma emissora também. E foi pesquisar sobre o assunto.

Raylan Fernandes tinha um site sobre jogos antigos da época: Mega Drive, SEGA, Odyssey, entre outros, e resolveu adicionar a rádio no site, mesmo com os tradicionais problemas de conexão. “Aprendi a montar um servidor de streaming usando o Showcast e montei meu próprio servidor de streaming no computador de casa, com uma conexão ADSL de 600 kbps”, conta.

O novo web-radialista passou a se interessar mais nesse novo universo e passou a prestar atenção em outras emissoras com presença na Internet e passou a investir em melhorias na sua nova mídia. “Percebi que havia gente séria obtendo sucesso, com audiência boa e programação bacana. Então, percebi que eu poderia fazer algo profissional, além de ser apenas um complemento do meu site. Então, em 2010 criei a Hunter.FM".

Raylan Fernandes montou uma equipe, formada por adolescentes como ele. Dinheiro não havia e a sua mãe, a Dona Edilene, que passou a “financiar” as suas “loucuras”. “Ela percebeu que eu gostava daquilo e notou que eu poderia ter algum futuro com a nova empreitada. A gente não tinha dinheiro para pagar servidor e as despesas. Não sabíamos como as coisas funcionavam no comercial, mas a gente queria fazer direito. Esse foi um desafio que foi bom ter enfrentado, segundo ele conta. A brincadeira foi crescendo, as pessoas foram gostando da qualidade de áudio, da programação”.

Entre o 2010 e 2011 a rádio conseguiu 300 acessos simultâneos, o que não agradou o provedor de streaming e a rádio foi convidada a “se retirar”. “O que a gente poderia fazer? Brigar? O que existia de melhor era muito caro para nós naquele momento... então, a gente procurava outro servidor de streaming e não demorava muito, novo pico de audiência, novo convite para ir embora.”

Com a audiência crescendo muito os provedores de streaming iam se incomodando, um a um, e a única saída era ficar trocando de fornecedor. “Essas empresas de streaming não davam conta do aumento da audiência ou não queriam que o consumo comprometesse os servidores delas. Na verdade, vendiam uma coisa, mas quando uma rádio web ultrapassa o consumo que ‘passavam dos limites’, acabavam por provocar o cancelamento do serviço. Como a gente queria fazer uma rádio para ter sucesso, a maneira que encontramos era contratar um link dedicado, o que nos levou a pensar comercialmente nosso projeto de rádio web”, lembra ele.

Foi, então, que a Hunter.FM passou a contratar datacenters com grandes capacidades, o que exigiu maior profissionalização da estrutura e da sua equipe.

A Hunter.FM hoje

Segundo Raylan Fernandes, a Hunter.FM está bem diferente de quando ela começou, que contava com programação baseada nas tradicionais do dial, com locutores, programas, etc. Hoje ela é rádio online focada em músicas e oferece diversas “estações” – entregues via streaming individuais - para a escolha do ouvinte, desde Pop, Sertaneja, Rock, Pop2K, Anos 80, Lo-Fi, Tropical entre outras trilhas. Toda programação é ao vivo, mas não tem locutores nem programas específicos. São 24 horas de música para quase todos os gostos”, afirma ele.

A cada 3 horas é gerada uma lista de 30 músicas no site da Hunter.FM, conhecida como TOP 5, com os hits mais populares do momento, onde o ouvinte pode votar em suas músicas preferidas dando "likes". De acordo com o número de votos em cada música, o sistema vai posicionando as músicas e quando for encerrada a contagem regressiva, as 5 músicas mais votadas tocam na programação ao vivo.

Por que não tem locutores nem programas ao vivo?

Segundo Raylan Fernandes, as emissoras do dial construíram uma estrutura física sólida para a gestão de toda a operação, com salas para a produção, o comercial e os estúdios. Todo mundo já está habituado a isso. “Com o digital, gerenciar remotamente a programação, as equipes e os locutores a coisa não é fácil.

Uma rádio web sendo totalmente remota seria um desafio porque não se tem controle dos ambientes onde seriam realizadas as transmissões. Desde 2013 é uma “rádio de música 24 horas”, acompanhando alguns modelos do de rádios multicanais do mundo inteiro, .977 Music (hoje Hitsradio), 181.FM. 1.FM, I Love Radio, SiriusXM. “Foi a partir deste modelo que a Hunter.FM vem crescendo e hoje possui mais de 1.9 milhões de ouvintes mensais, distribuídos por todos os seus canais”, afirma.

A Hunter.FM já promoveu algumas pesquisas com os ouvintes sobre possíveis mudanças, com a inclusão de programas ao vivo. E a resposta é sempre “não’.


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